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Vôo fora do ninho

Ilustração: Fagner Machado

“Um sonho? Morar fora do Brasil!”. Essa frase tem se tornado mais comum do que pensamos. Seja pelo crescimento da violência, pela falta de oportunidades na área profissional, pelo caos na política… E não somos nós que estamos afirmando isso.

Uma pesquisa feita pelo instituto Datafolha e divulgada em junho, dá conta que 62% dos brasileiros entre 16 e 24 anos desejam morar no exterior, número que corresponde a 19 milhões de pessoas – o equivalente à população do Estado de Minas Gerais.

Segundo o estudo feito com 2.090 pessoas em todo o Brasil, 50% dos que têm entre 25 e 34 anos deseja deixar o país, enquanto entre os entrevistados de 35 a 44 anos, 44% querem viver no estrangeiro e 32% na faixa etária de 45 a 59 anos. Os que têm idade a partir dos 60 anos, o percentual cai para 24.

Em relação à escolaridade, 56% dos indivíduos que possuem ensino superior declararam o desejo de morar no exterior. Entre os que possuem os ensinos médio e fundamental, os percentuais foram de 48% e 27%, respectivamente.

O levantamento, realizado em 129 municípios brasileiros, levou também em consideração as diferenças sociais. Quanto mais alta a classe social do indivíduo, maior é o desejo de morar em outro país. De acordo com o Datafolha, 51% da classe A/B manifestaram essa vontade, assim como 44% da classe C e 30% da classe D/E.

A pesquisa diz ainda que os EUA são o país que mais atrai os brasileiros, à frente de Portugal e Canadá.
A revista GeraçãoJC quis saber se os nossos jovens também estão com esse sonho. Conhecemos algumas pessoas que já estão em outros cantos desse mundão em busca de uma vida melhor.

A mais nova, desse grupo, a deixar o Brasil é a Cristina Ricardo. A Assembleiana carioca foi para Toronto (Canadá) em meados de julho, através de um intercâmbio. Ela disse que ficou feliz ao receber a notícia, “porém, com medo. A reação da família foi gradativa, até absorverem que realmente iria sair do seio familiar”.

 

Cristina disse que apesar da barreira da língua, “as pessoas são muito prestativas, sempre que pergunto algo, me ajudam”.

Com Ester Guedes não foi diferente. Hoje aos 18 anos, a jovem morou por 7 anos em Portugal. Seu pai foi transferido para o país quando ela tinha 4 anos. “Fiquei muito ansiosa, pois eu estava para fazer 5 anos. Estava muito curiosa quanto às coisas de lá”.

A jovem disse que encontrou barreiras por conta da língua. “Apesar do idioma ser o Português, muitas palavras são diferentes do que é falado no Brasil, senti muita diferença, principalmente na escola”.

Roseane Kathrein mudou-se para Áustria há seis anos e meio quando casou com um austríaco. Apesar de assustados e receosos pela distância, ela disse que seus familiares ficaram felizes por ela.

Roseane foi para o país sem falar nenhuma palavra em alemão e disse que não fez amizade fácil. “Os austríacos são mais fechados, embora sejam bem simpáticos, demoram a aceitarem, mas quando os conquistamos, são super amigos e acolhedores”, conta.

Já Aline Julio, que está na Irlanda há 3 meses por meio de um intercambio, diz que fez amizade rápido. Aline conta que escolheu o país pois, é “um dos lugares mais baratos pra se fazer intercâmbio e tem a possibilidade de trabalhar ficar até dois anos, e o mais incrível pode conhecer vários países da Europa por baixo custo!!”.

Ela disse que a família deu apoio, “mas foi muito difícil me despedir da minha avó. Ela é tudo pra mim e à distância dói”.

Cada uma que se passa…

Mas nem tudo são flores. Se você pensa que é só escolher um país, fazer o passaporte, conseguir o visto (dependendo do lugar), arrumar as malas e partir rumo ao sonho. Nem tudo é tão simples assim. Muitos passam perrengues, alguns até diários, em terras estrangeiras.

Ester lembra que “certa vez, uma amiga da escola me convidou para almoçar após as aulas. Ao chegar na casa dela, o almoço era caracóis! Para eles é normal comer a iguaria na época do verão, mas para mim foi um choque! Pedi à mãe dela que me fritasse um ovo (risos)”.

E ela não é a única a enfrentar desafios na culinária alheia. Aline revela que um de seus problemas eram com a pimenta. “Tudo o que eu comprava na Irlanda tinha pimenta. Não sabia falar que não queria pimenta, não sabia ler, não prestava atenção. Comi tudo com pimenta. Batata com pimenta, frango com pimenta, se tivesse leite com pimenta, eu tomava”, agora ela se diverte com a situação.

Os de Roseane estavam relacionados com o alemão. “Foram diversos perrengues, todos relacionados ao idioma. Fico bloqueada quando nervosa e por isso já ouvi de algumas pessoas ‘você não está apta porque não fala alemão’, mas acabo me concentrando e mostrando que sou apta sim. Afinal, tudo posso naquele que me fortalece!”, alegra-se.

Cristina passou por um “imbróglio” logo que desembarcou no Canadá. “Assim que cheguei no aeroporto, tive meu primeiro teste com o inglês, pois minha mala, assim como de outros 6 passageiros, ficou perdida em outro ‘Gate’. Neste grupo, somente eu falava um pouco de inglês. Neste momento minha ficha caiu: dali para frente seria somente Deus e eu para resolver qualquer coisa. Graças a Ele consegui me comunicar bem com a empresa responsável pelo nosso vôo e depois de 1h nossas bagagens foram localizadas. No mesmo dia mais tarde, resolvi sair da minha zona de conforto pois precisava comprar um chip para ter internet no meu celular, não sabia como andar aqui, mesmo tendo feito uma pesquisa durante meses na internet, nada é como realmente é… mais uma vez, fui testar meu inglês, pois precisei pedir ajuda a alguém e me ajudaram a chegar até o meu destino. Me considero uma sobrevivente todos os dias, pois cada dia tem uma aventura diferente. Fiquei uma semana me perdendo até conhecer de fato o local ao redor da escola e a casa onde estou morando. Como sabem, Toronto é comparada ao RJ ou SP, conhecida como cidade dos negócios”.

O que tem de bom?

Mas nem só de perrengues vive quem está fora do país. Eles têm muitas experiências boas para contar. Uma das coisas que Cristina já passou “definitivamente a forma cultural de tratar o próximo e a educação na questão de trânsito, limpeza e leis locais”.

Aline conta que com o intercâmbio, todo dia se vive o novo. “Não existe rotina. Nos primeiros meses você fica na expectativa de um lugar pra morar. Aí você consegue. Nesse intervalo conhece lugares maravilhosos, centro da cidade, perto. Daí não tem rotina. Você começa a conhecer mais pessoas. Você começa a descobrir a nova língua, a nova cultura, essas coisas, é bom”.

Ester diz que aproveitou muito os passeios da escola. “Uma coisa que me marcou muito foram as visitas de estudos escolares. Visitei lugares espetaculares e aprendi muito!”, recorda.

“Foram vários bons momentos que já tive aqui durante esses quase 7 anos. Desde os pequenos como me comunicar em alemão até os grandes, como a maternidade”, alegra-se Roseane.

Mesmo estando felizes nesses países, elas dizem que sentem saudades de casa, saudades do país. Elas listaram algumas coisas que mais sentem falta do Brasil. “Sinto muita falta da minha família, da igreja e da comida brasileira”, fala Roseane.

“Além da minha família, é a comida. Aqui eles não comem feijão em nenhum momento do dia. No horário de almoço eles apenas fazem um lanche de no máximo 30 minutos”, lamenta Cristina.

Aline também faz coro com a Cristina e Roseane, e diz que sente saudades “da família, da comida, do churrasco em família (aqui encontramos todos os ingredientes, mas sentimos falta do gosto), dos amigos que a gente deixa pra trás. Sente falta das pequenas coisas”.

Ester diz que sentia muita falta “do convívio com os parentes, meu avós, por exemplo”.

Quero no Brasil

Nossas entrevistadas dizem que gostariam que o Brasil tivesse algumas coisas que tem onde estão vivendo. “O Brasil é maravilhoso, mas eu gostaria que tivesse a organização política que tem aqui. A qualidade de vida, as pessoas trabalham 6 horas, vai pra casa e consegue ir ao parque, final de semana consegue dar atenção aos seus filhos, consegue com um preço acessível ir pra um outro país, consegue ir ao Museu, ao cinema com um preço que cabe no orçamento da pessoa que mora aqui. Resumindo: a cultura e a qualidade de vida da Europa no Brasil!”, deseja Aline.

Roseane também anseia por “qualidade de vida para todos!”. Já Cristina espera que o nosso país tenha: “possibilidade de evolução profissional além de linguística. Eles realmente investem no futuro dos profissionais em suas áreas”. Ester também almeja por boa educação. “As escolas (são de muita qualidade, mesmo as públicas) e a segurança do país”.

Cristina e Aline falaram um pouquinho sobre a vida de intercambista. “Não é nada parecida com muitos vídeos que vemos no Youtube, a vida de intercambista não é nada fácil, imagine sair do seu pais sozinho para morar por um tempo em outro onde todos falam outro idioma, possuem culturas e muitas vezes religiões diferentes, pois no caso do Canadá, é reconhecido como o maior país multi-cultural. Aprender a respeitar a religião do outro e seus limites de convívio é uma das primeiras coisas que deve-se se doutrinar, porém sem perder seus conceitos, no qual foi instruído desde pequeno em seu país mãe”, explica Cristina e Aline complementa. “Intercambio você nunca fica sozinho. Uma frase que eu aprendi de uma imã de uma igreja daqui da Irlanda é que se você quer ter um amigo, seja amigo de alguém, gaste tempo com alguém. E a partir do momento que você gasta o tempo, você adquire esse amigo, você tem esse hábito, você nunca fica sozinho”.

Perguntamos às nossas entrevistadas se elas têm facilidade pra falar de Jesus em seus “novos” países. “É a coisa mais fácil aqui. Falar de Deus. Como diria minha amiga: ‘quando uma pessoa chega sem fé na Irlanda, rapidinho ela adquiri’. Pois como a pressão no seu psicológico é maior, por mais que você tenha ajuda, você tem que fazer as suas coisas sozinha. Então ficamos mais sensível, o que facilita pra falar de Deus”, explicita Aline.

“Temos oportunidades de falar de Jesus sim. Aqui é um país católico, mas vão mais a igreja pelo costume. As pessoas se espantam por conhecermos e lermos a Bíblia, mas não estão abertas à mudança”, lamenta Roseane.

Ester falou de Jesus para algumas pessoas e segundo ela, eles “reagiram de forma positiva. Atualmente uma delas congrega firme em uma Igreja Evangélica!”.

A primeira coisa que me perguntei antes de ousar me planejar para esta incrível jornada era se Deus aprovava e mais, se era plano dEle que isto se tornasse real em minha vida, pois sabia que assim poderia viver não somente os 50% das bênçãos dEle e sim os 100%. Sempre peço a Deus estratégia, pois sei que aqui é um pais muito liberal e que muitos não acreditam em Deus ou não seguem seus princípios e sofrem com as inversões de valores. Esses dias postei uma gravação de áudio do meu momento de adoração em meu quarto e minha colega Mexicana assistiu e automaticamente me respondeu, dizendo que não entendia muito bem o que dizia a musica, porem algum motivo não conseguia parar de escutar. Sei que neste momento, de alguma forma plantei uma semente, fiquei muito feliz, pois é como se Deus respondesse minhas orações sobre o motivo de estar neste pais por um tempo”, jubila Cristina.

Sobre o autor

Roberta Marassi

Roberta Marassi é jornalista, pós-graduada em telejornalismo, editora da revista GeraçãoJC, membro da AD.

Comentários

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    • Amém, Roseane!

      Agradeço pela entrevista e desejamos que o Senhor continue a te abençoar. Que Ele te capacite mais e mais a ganhar almas para o Reino. Fica na paz!

  • Que linda entrevista! Não só foi esclarecedora sobre as vantagens e “perrengues” de um intercambio, como também, foi maravilhoso saber da “facilidade” de levar o amor e a palavra libertadora de Cristo às pessoas na Irlanda! Entrevista animadora. Parabéns à jornalista Roberta Marassi e a CPAD!

    • Amém, Marcia!

      Ficamos felizes em saber que a matéria que preparamos com tanto carinho, tem alcançado vidas. Pode ficar a vontade pra voltar sempre. Compartilhe com seus amigos!

      Contamos com suas orações. Que o Senhor continue a te abençoar. Fique na paz!