O cristão pode falar palavrão? – Revista GeraçãoJC
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O cristão pode falar palavrão?

Texto por JORGE ANDRADE, com exclusividade para GeraçãoJC

Uma palavra de baixo calão, conhecida popularmente como palavrão pode ser ouvida diariamente incontáveis vezes, querendo você ou não. Na condução ou na rua, num ambiente privado ou público, na cidade ou no campo, onde quer que haja uma pessoa guiada pelos instintos naturais dela, pode-se esperar que mais cedo ou mais tarde dali vai surgir um palavrão. Por isso, não é um exagero dizer que vivemos uma verdadeira pandemia de vulgaridade verbal.

Um tropeço, um vacilo, uma adversidade, qualquer coisa que mexa com a emoção pode resultar numa sonora palavra de baixo nível. Vamos à ciência, pois ela tenta explicar, em parte, o motivo disso.

O caso patológico

Há 133 anos, o neurologista francês Gilles de La Tourette atendeu a uma ilustre e distinta dama da nobreza gaulesa. Ela falava compulsivamente palavrões. Essa atitude é conhecida no jargão médico moderno como coprolalia. De acordo com especialistas, quem sofre disso incorpora em sua fraseologia cotidiana, sem perceber, palavras ou frases inconvenientes, e até mesmo grunhidos ou gemidos de conotação sexual. Sete em cada dez palavras pronunciadas são impróprias.

A corpolalia é um sintoma da embaraçosa doença conhecida como Síndrome de Tourette, que afeta uma em cada 2 mil pessoas – 75% das quais homens – e que leva esse nome justamente por ter sido uma descoberta do neurologista francês após aquele episódio com a dama gaulesa. Além da incontinência verbal, a síndrome pode causar tiques nervosos que vão de um simples piscar dos olhos até coisas como lamber as mãos ou manipular os órgãos genitais em público. Esse é um caso patológico. Óbvio que nem todo mundo que fala palavrão sofre dessa doença – na esmagadora maioria dos casos, trata-se simplesmente de falta de educação ou descontrole.

Estudos científicos mais recentes dão conta de que a linguagem comum e os pensamentos ficam a cargo do neocórtex, a parte mais sofisticada do nosso cérebro. Já as emoções são controladas pelo sistema límbico, que fica no fundo do cérebro. Ele é muito mais primitivo que o neocórtex. Portanto, menos sujeito a controle.

Tradutoras de sentimentos como raiva, ira ou excitação, as palavras de baixo calão expressam qualquer emoção indizível, seja ela considerada ruim, seja “boa” – quase incontroláveis, classificam os estudiosos. Hoje, são tão correntes que as pessoas os pronunciam mais por hábito mesmo.
Eles explicam, então, que é por isso que os xingamentos estão sempre ligados à base da existência. Daí as palavras consideradas palavrões são sempre relacionadas a sexo ou a excrementos humanos. Lógico: se o objetivo, ainda que inconsciente, é chocar, naturalmente a palavra tem de se relacionar a algo repulsivo.

Pesquisadores garantem, ainda, que os palavrões sempre influenciaram os relacionamentos sociais, e sempre causaram polêmica. A única alteração, nesse sentido, é com relação às palavras em tom de ofensas, que se renovam de acordo com as épocas, se adaptando ao vocabulário e aos assuntos vigentes, sempre com teor negativo.

Um hábito

O que é um hábito? Um comportamento que a pessoa aprende e repete frequentemente. Palavrões ditos com frequência são, na maioria das vezes, resultados de um hábito. Aliás, tais palavras se tornam tão comuns a algumas pessoas que já nem lhes causam mais estranheza. As palavras já estão tão entranhadas no repertório que a pessoa se sente quase impossibilitada de se expressar sem pronunciar tais obscenas expressões.

Como muito da prática do palavrão nada mais é do que um hábito, deixar de falar palavrão é mais do que possível, porque hábitos podem ser mudados, como veremos mais adiante.

A perspectiva bíblica

Pode o cristão falar palavrões?

Um cristão que em sua vida anterior sem Cristo tinha o hábito de falar palavrões pode eventualmente, em um momento de fraqueza, quando sob pressão, indignação e estresse, não controlar-se e falar palavrão, como “válvula de escape” natural de sua raiva. Porém, ele precisa aprender a desenvolver o autocontrole, o que pode não ser fácil, mas com a ajuda do Espírito Santo é totalmente possível, além de desejável (Gl 5.22).

Já houve gente que propôs uma alternativa ao autocontrole: os chamados “‘palavrões’ que o crente pode dizer”. Há, inclusive, os chamados “‘palavrões’ que o crente pode dizer no trânsito”: “O que que esse incircunciso quer na pista?”, “Essa samaritana não acelera”, “Esse publicano não vai deixar eu passar!”. Assim, dizem, você pode se estressar no trânsito sem pecar. O problema é que mesmo que o crente não esteja usando nenhuma palavra de baixo calão nesses casos, ele não está tratando o principal problema: vencer o descontrole emocional e a compulsão e o desejo por xingar e ofender quando se está indignado.

Diante de situações extremamente imorais, más, desonestas, é natural um homem e uma mulher de Deus se indignarem e até, em certas circunstâncias específicas, responderem aos promotores daquele tamanho mal, daquela gritante imoralidade, com palavras muito duras de repreensão. Vide os casos de Elias, João Batista e o próprio Jesus (1Rs 18.18; Lc 3.7; Mt 23.13-33). Há também as terríveis palavras de imprecação no Antigo Testamento. Não há pecado nisso, mas devemos nos lembrar que essas são situações muito específicas. As imprecações, por exemplo, tinham um cunho profético. Não eram apenas palavras de indignação, mas profecias que teriam e tiveram seu cumprimento. E nenhuma delas envolviam palavras de baixo calão, palavras torpes.

A pessoa que se compromete a seguir Jesus, a ser um verdadeiro discípulo dEle, a andar como Ele andou, a ser semelhante a Ele, jamais deve pronunciar palavras de baixo calão. Pelo menos esse deve ser o objetivo dela. Vejamos os motivos:

a) Quem está em Cristo é uma nova criatura (2Co 5.17). Os hábitos contrários à Palavra de Deus precisam ir sendo progressivamente sepultados na medida em que se vai conhecendo a doutrina de Jesus. Então, é preciso estudar a Bíblia diariamente com cuidado e esmero.

b) O discípulo de Jesus deve entender que a vida cristã é aquela vivida no Espírito Santo. Na verdade, a vida cristã só é possível no Espírito. Fora dEle, nossa vida é como a de qualquer pessoa.

c) Quem creu no sacrifício de Jesus na cruz para lhe redimir do pecado e, por isso mesmo, foi ressuscitado da situação de morte espiritual e transportado para uma condição de comunhão com o Deus santo, santo, santo, não pode pronunciar impurezas. Sua vida está cheia de indecências e vulgaridades? Não há como manter comunhão com Jesus e permanecer na impureza. Não é possível servir a dois senhores (Mt 6.24).

d) Jesus advertiu severamente aos discípulos ao afirmar que a boca fala daquilo que o coração está cheio (Mt 12.34). Se rios de água viva fluem do seu interior (João 7.38), eles não podem se converter em lábios amargos. A fonte não pode ser boa e dar água ruim (Tg 3.11).

e) Pode uma pessoa na qual o Espírito Santo fez morada nela, e que está buscando e pensando nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus, continuar arraigado com palavras espúrias da terra?

f) O discípulo em comunhão com Jesus manifesta o domínio próprio (Tt 1.8). Ele busca conhecimento, perseverança e piedade (2Pe 2.6).

g) O salmista relembra esta competência humana, ao dizer que Deus deu ao homem domínio sobre todas as obras das suas mãos e dos seus pés (Sl 8.6).

h) Paulo fala aos Efésios 4.29: “Não saia de vossa boca nenhuma palavra torpe, mas a que for boa para promover a edificação para que dê graça aos que a ouvem.” (ARC)

“M… Falei, pronto!” – É possível deixar de falar palavrão?

Sim, é! Na adolescência, eu falava muitos deles. Até que um colega cristão da escola me disse: “Gosto muito da sua companhia, mas detesto sua boca suja. Isso é falta de educação, rapaz”. Isso foi o suficiente para que eu pudesse refletir sobre o assunto e decidisse mudar.

Daí pedi ajuda a Deus. Roguei ao Espírito Santo que me ajudasse a vencer esse pecado. Só Ele pode nos convencer e operar em nosso interior a obra da santificação. É preciso disposição para dar o primeiro passo.

Agora, é bom lembrar que estudos mostram que, para eliminar um hábito, leva-se cerca de 3 semanas, ou seja, 21 dias. Então, que tal fazer este desafio: 21 dias sem palavrão? E logo depois, nunca mais com eles, com a graça de Deus.

Sobre o autor

Silas Daniel

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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