Tira-Dúvida

“No capítulo dois do Evangelho de João, o Senhor Jesus comparece a um casamento e lá encontram-se as seis talhas de pedra, cheias de água para a purificação dos judeus. Pergunta: como se processava a liturgia de purificação dos convidados?”

Por: César Moisés

Joseph H. Mayfield, comentando a passagem de João 2.6, explica que as “talhas eram grandes jarros de pedra com capacidade entre 68 e 102 litros cada uma” e que “Todos os convidados deveriam lavar os pés quando entrassem”.1 David J. Ellis, por sua vez, afirma, acerca do mesmo texto, que a “purificação ritual era geralmente praticada pelos judeus antes e depois das refeições”.2 Apesar de haver uma variação a respeito da medida (alguns autores dizem que poderiam ser de 80 a 120 litros cada), o fato é que as talhas ficavam sob o solo de forma a facilitar sua utilização por todos que acessavam a casa. É curioso que elas estivessem vazias, pois Jesus orienta os serviçais a que as encham com água (Jo 2.7).

Tal curiosidade, entretanto, é resolvida com a interpretação de que, como afirma Mayfield, “Não é coincidência que João mencione este procedimento relacionando-o com as purificações dos judeus”.3 Converge com este pensamento, Ellis, pontuando que o apóstolo do amor “parece tornar a referência suscetível também à interpretação espiritual”.4 Em outras palavras os “recipientes representam o costume da lei, o legalismo, que é exibido da seguinte maneira: 1. Inadequado para as verdadeiras necessidades do homem […]; 2. Limitado em comparação com a completa abrangência da abundante alegria no evangelho, simbolizada pelo vinho em grande quantidade […]; 3. Inferior ao melhor que Deus tem para o homem”.5

Tal interpretação é facilmente entendida quando se percebe que o evangelho de João, assim como os demais, contém uma estrutura teológica para expor as narrativas. Tal estrutura, em se tratando especificamente do livro em questão, possui uma divisão quádrupla: Prólogo (cp.1); livro dos sete sinais (cps.2―11); livro da paixão (cps.12―20) e epílogo (cp.21). Em contraposição aos rituais de purificação exteriores e mecanicistas que ocorriam nas casas e no Templo, João evidencia que o ministério terreno do Senhor Jesus tinha como finalidade demonstrar a superioridade purificadora de sua obra. Mais que isso, o elenco dos sinais separados pelo apóstolo do amor dava o tom do programa do ministério do Senhor, contudo, apenas desse primeiro milagre é dito que, através dele, Jesus “manifestou a sua glória” (2.11).

O milagre da transformação da água em vinho, diferentemente do que alguém pode pensar, tem finalidades teológicas claras da parte de João, pois muitos outros sinais foram realizados pelo Mestre, entretanto, se todos fossem relatados o mundo todo não comportaria os livros que seriam escritos (Jo 20.30,31; 21.25). Assim, as bodas de Caná sinalizam para a mudança de Aliança efetuada por Cristo Jesus, onde não mais a água para purificar o exterior, mas sim o vinho novo para transformar, radicalmente, a partir do interior (Mc 2.21,22).

NOTAS
1 Comentário Bíblico Beacon. João a Atos. Vol.7. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.43.
2 Comentário Bíblico NVI. Antigo e Novo Testamento. 1.ed. São Paulo: Vida, 2009, p.1712.
3 MAYFIELD, J. H. Op. Cit., p.43.
4 ELLIS, D. J. Op. Cit., p.1712.
5 MAYFIELD, J. H. Op. Cit., pp.43-44.

César Moisés Carvalho é pastor, pedagogo, pós-graduado em teologia pela PUC-Rio, professor universitário e chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD.

Sobre o autor

Aline Ferreira

Evangélica, jornalista, pós-graduada em Administração de Marketing e Comunicação Empresarial, atua como redatora web na CPAD.

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