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Não morda a isca – triunfando sobre a tentação (Parte 1)

Ilustração: Fagner Machado

Por Henrique Pesch

A tentação é um fato inescapável na vida de todo cristão. Todos os crentes, jovens, adultos ou idosos passam por tentações nesta vida. O primeiro casal na Terra, Adão e Eva, foram tentados pela serpente para experimentarem do fruto proibido da árvore do bem e do mal. A tentação é sempre algo que nos atrai, que passa a ideia de que irá saciar algum prazer nosso. Ela mexe com alguns instintos, anseios e vontades típicas da nossa velha natureza, ou do “velho homem”. Quando aceita, ou quando cedemos à tentação, isso se torna pecado.

Dietrich Bonhoeffer foi um dos grandes pensadores teológicos do século XX. Pastor luterano, foi membro da resistência alemã anti-nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Foi preso pelos nazistas por ajudar um grupo de judeus a fugir para a Suíça. Condenado por traição foi executado por enforcamento no campo de concentração em Flossenbürg, em 1945. Durante seu aprisionamento, Bonhoeffer escreveu acerca de várias questões teológicas importantes. Um exemplo é um curto trecho acerca do assunto da tentação. Leia suas palavras:

Em nossos membros existe uma inclinação adormecida para o desejo que é tanto repentino quanto cruel. Com um poder irresistível, o desejo agarra o domínio sobre a carne. De repente um fogo ardente secreto é aceso. A carne queima e está em chamas. Não faz diferença se é um desejo sexual, uma ambição, uma vaidade, um desejo de vingança, um amor por fama e poder, ou avareza por dinheiro ou, por fim, o estranho desejo pela beleza do mundo natural. A alegria em Deus está prestes a se extinguir dentro de nós e buscamos, a essa altura, toda a nossa alegria na criatura.

Deus é um tanto quanto irreal para nós. Perdemos a noção da Sua realidade e apenas o desejo pela criatura é real. A única realidade é o diabo. Satanás não nos preenche com ódio por Deus, mas com desconsideração para com Ele.

Então, as cobiças envolvem a mente e a vontade do homem em densas trevas. Os poderes da clara discriminação e decisão são tirados de nós. É nesse momento que tudo dentro de mim se levanta contra a Palavra de Deus (Bonhoeffer, 2003) .

Que tremenda esta declaração! Mesmo numa prisão este homem diz que sofria com a tentação! Não importa onde estivermos – trabalho, faculdade, no quarto, lazer ou até dentro da igreja – podemos ser tentados.

Então o que é tentação?

“É a aproximação do pecado. A pessoa é seduzida, atraída a cometer um ato que, definitivamente, desagrada a Deus, com a promessa de obter prazer ou algum retorno que a gratifique.”

Portanto, não é pecado ser tentado, mas o pecado é ceder à tentação. Veja o que João diz: Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo (1 João 2.16). Veja que isso aconteceu com Adão e Eva naquela primeira tentação da humanidade.

1° Concupiscência da carne – o fruto era bom para se comer!
2º Concupiscência dos olhos – agradável aos olhos!
3º Soberba da vida – desejável para entendimento!

E, como sabemos, infelizmente o primeiro casal cedeu a esta tentação trazendo a maldição do pecado sobre toda a humanidade. E é justamente o pecado, ou nossas iniquidades que fazem separação entre nos é Deus, conforme diz o profeta Isaías: Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça (Isaías 29.2).

Veja que tremendo, são justamente nossos pecados que fazem Deus não nos ouvir! Às vezes nos perguntamos por que Deus não nos ouve. Eis a resposta clara neste texto bíblico – nossas iniquidades! É como se quando oramos em pecado, nossa oração não passasse do teto! Temos que ter todo o cuidado e estarmos constantemente alerta para rejeitarmos aquilo que parece bom à nossa carne, olhos e até entendimento, mas que estarão diretamente nos fazendo pecar e afastando a presença do Senhor de perto de nós.

 

Continua na próxima semana.

¹Bonhoeffer, Dietrich. Tentação. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2008.

Henrique Pesch é presbítero e líder de jovens na Assembleia de Deus em Curitiba. Formado em Letras, Mestre em Teologia é professor e tradutor; autor dos livros “Escolhendo a pessoa certa – cinco pontos fundamentais na vida sentimental do jovem” e “Pós-modernidade e o jovem pentecostal da Assembleia de Deus – influências e caminhos”.