Coisas de Deus

Depois de muito resistir, jovem vive os sonhos de Deus e começa a realizar os seus

Arquivo pessoal

Sou Gustavo Barcellos de Jesus, tenho 27 anos, carioca, técnico em eletrotécnica e engenheiro eletricista. Em janeiro de 2003, estava num acampamento onde minha vida foi marcada por Jesus. O preletor falava da importância de tomar uma posição diante de Cristo. Lembro-me que numa parte da mensagem, meu coração ardia e queimava. Ele perguntou quem aceitava o chamado missionário. Sabia que Deus estava falando comigo. Fui à frente e entreguei a minha vida para que Ele atuasse como quisesse.

O tempo passou e a chama foi apagando. Pensava em ter uma profissão, trabalhar numa grande empresa, ter casa e carro próprio. Tudo isso abafava o chamado de Deus. Por várias vezes assistia cultos onde missionários pregavam, as mensagens me tocavam, chorava. Mas algo me prendia, não queria fazer missões, pois teria que deixar sonhos para trás.

Em 2007 entrei na faculdade e três anos depois passei num concurso público. Estava todo animado, afinal realizaria o meu sonho. Ser missionário era a última coisa que queria.

Nos exames de admissão, deu uma alteração no sangue. Repeti outras 3 vezes, com o mesmo resultado: baixa produção de leucócitos. Fiquei reprovado. Procurei um especialista e descobri que tinha hipoplasia medular. Um problema que influência na imunidade do corpo. Fiquei sem chão e muito decepcionado. Não conseguia aceitar a reprovação.

Terminei a faculdade em 2011. Não sabia qual caminho seguir. Não queria fazer missões, mas me sentia um fugitivo me escondendo de Deus. Comecei a procurar emprego, duas vagas praticamente certas e as portas foram fechadas. Deus começava a me direcionar para sonhos maiores, mesmo resistindo ao máximo.

Em 2012, Ele me deu o ultimato. Estava num culto e tive a oportunidade de falar sobre o evangelismo do dia anterior. Um missionário iria pregar. Sentei no último banco com uma enorme vontade de estar do lado de fora, sabia que Deus falaria comigo. No final da mensagem, ele indaga onde estava o rapaz que tinha falado anteriormente. Levantei a mão e, todo sem graça, fui à frente. Fui recebido com a seguinte pergunta: “Até quando você vai fugir de Deus?”. Naquele instante parece que só estava Deus e eu. O pastor falava coisas que só Ele sabia. Decidi viver Seus sonhos para mim.

Deus me conduziu ao projeto Radical África, onde a finalidade é enviar jovens para trabalhar entre os povos não alcançados no oeste Africano. Junto com outros 9 jovens, embarquei para viver 2 anos em Burkina Faso.

Recém formado, com mercado aquecido, indo fazer trabalho voluntário na África. Algumas pessoas diziam que era “maluco”, que não estava tomando a decisão correta. Fui desencorajado, mas tinha convicção que era a escolha certa.

Em agosto de 2013, desembarquei numa terra totalmente estranha. A equipe foi dividida em duas para que trabalhássemos em aldeias diferentes. Ficamos na aldeia Safané, com cerca de 6 mil habitantes, onde a religião é o islamismo e o animismo. A temperatura chegava aos 49º no verão, não tinha energia elétrica, nem água encanada.

Chegamos com o desafio de iniciar um trabalho evangelístico. Não conhecíamos nada, isso assustava um pouco. Mas Deus foi abrindo as portas. Ajudamos num posto de saúde, demos aula de artes numa escola, dentre outros projetos.

Criamos uma escola bíblica com as crianças entre 9 e 16 anos, que faziam parte do time de futebol em que era técnico. Uma porta que Deus escancarou e muitos aprenderam desde a criação até a ressurreição de Cristo.

Ao sair do Brasil, falei para Deus que poderia usar meus dons e talentos. Chegando lá, surgiu a ideia de criar um curso profissionalizante para que tivessem uma profissão além de só plantar e colher como a maioria faz. A realidade do país é dura, e não existe qualquer tipo de incentivo ao estudo. Com o apoio da Junta de Missões Mundiais (nossa agência missionária) foi aprovado o projeto de curso para formação de auxiliares de eletricista. Através da minha profissão pude abençoar a vida do próximo e fazer com que o amor dEle fosse propagado.

O curso iniciou com 3 turmas, totalizando 30 jovens. Ele era mais prático, já que alguns tinham dificuldade em ler e escrever. Mas isso não impediu o sucesso deles até o final.

Na conclusão teve uma apresentação, em que estudaram um tema e explicaram aos colegas. Surpreendentemente todos tiveram êxito. O curso foi reconhecido pela prefeitura, e 30 novos auxiliares de eletricista estavam formados. Coincidentemente um projeto para levar energia estava sendo implantado na aldeia, dando oportunidades a eles.

Fizeram uma festa para celebrar o êxito dos alunos. Fui surpreendido por alguns comentários. Como eram mulçumanos, havia grande cuidado para não fechar a porta de seus corações ao evangelho, e não “ofender” suas crenças. Nunca abri a Bíblia e preguei durante o curso, mas através do testemunho puderam ver o amor de Deus. Sempre deixava bem claro que Ele os amava tanto que tirou alguns jovens do Brasil para estarem ali.

Ao final da festa novos agradecimentos, mas dessa vez foi diferente. Todos se calaram e o senhor mais velho tomou a palavra emocionado e disse: “Obrigado por você ter deixado teu país, tua família, teu trabalho, tua igreja, teus amigos e estar aqui conosco, não tem dinheiro que pague”. Nesse momento fiquei emocionado, lembrei tudo que tinha passado, de todas as portas fechadas e agradeci a Deus por pisar em solo africano.

Através da vivência da equipe na aldeia algumas pessoas perceberam o amor de Jesus. Antes de deixar a África, fizemos uma festa de despedida. Um dos agradecimentos que mais me marcou foi o de um rapaz declarando para mais de 200 pessoas que sabia que o nosso Deus era diferente.

Após 2 anos vivendo grandes experiências com Deus, só agradeço por tudo que Ele fez em minha vida para que estivesse em Burkina. Em agosto de 2015 voltei com o desafio de reorganizar a vida. O mercado não estava tão aquecido e tinha ficado muito tempo fora, estava meio desatualizado. Fiquei num ano sabático, procurando emprego. Às vezes entrava em crise e pensava que Deus tinha se esquecido de mim.

Em outubro de 2016 recebi um telegrama de um concurso que fiz em 2009. Já tinha até esquecido, mas as promessas de Deus se cumprem. Depois de 7 anos, a benção chegou. Fiz todos os exames e não acusou nenhum problema. Em dezembro assinei a admissão.
Deus já tinha tudo preparado, minha falta de fé me impediu de acreditar que Ele não perde o controle de nada. Às vezes faltam palavras pra agradecer o quanto Ele foi fiel e cada coisa se encaixou no tempo correto. Um capítulo da minha vida acabou e um novo se inicia com a certeza que estou no centro da vontade de Deus.

Vale a pena confiar nEle, independente da situação. Deus continua sendo Deus. Ouse sonhar os sonhos dEle. Deixe-o dentro dos seus planos. Não se contente com “migalhas”. Ouse viver grandes experiências com Deus. Não dê o resto do teu tempo, ofereça o seu melhor, a tua juventude, para que glória dEle resplandeça sobre você.

Revista GeraçãoJC, edição 117.

Sobre o autor

Roberta Marassi

Roberta Marassi é jornalista, pós-graduada em telejornalismo, editora da revista GeraçãoJC, membro da AD.

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