Crises existênciais na adolescência – Revista GeraçãoJC
Comportamento

Crises existênciais na adolescência

Por: Thiago Santos

A adolescência é como um oceano a ser desbravado. Quanto mais se navega, mas se conhecem os mistérios que o infinito horizonte de águas tem a revelar. Neste ínterim, é possível conhecer as mais lindas ilhas com belezas naturais nunca antes exploradas. Do mesmo modo, é possível encontrar muitos perigos nunca vistos ou experimentados por nenhum navegador. É um mundo de águas que não tem fim, mas que subsiste de maneira gloriosa. Assim é a adolescência, todo ser humano que atravessa por esta fase tem uma ideia muito subjetiva do que significa esta etapa da vida. Com o passar dos anos, cada um olha para trás pensando nas experiências vivenciadas com alegria, da roda de amigos, das tristezas e regozijos, dos sucessos e desagrados vivenciados pelos tempos da tenra idade. Neste contexto estão aqueles que, diga-se de passagem, não são poucos, acabam sendo vencidos pelas crises existenciais. Mas o que são as crises existenciais e como se manifestam? A compreensão desse processo é tão importante quanto a maneira como se deve lidar com ele. Para tanto, é preciso compreender os motivos que levam os adolescentes a assumir determinados comportamentos, objeto de nossa análise, e a partir de então, encontrar mecanismos saudáveis que ajudem o adolescente a administrar as intempéries que assolam a sua vida.

O que são as crises existenciais
A palavra crise tem vários significados conforme o contexto em que é aplicada. De acordo com o Dicionário Houaiss, em seu sentido mais amplo, podemos entender a crise como um momento de desequilíbrio, incerteza ou tensão. Quando nos reportamos à adolescência, dizemos que há um desequilíbrio ou desajuste nervoso, emocional. Nesta fase da vida as emoções estão passando por muitas mudanças, é uma tentativa do cérebro de se readaptar a novas situações.

Quando se diz que a crise é existencial, mais especificamente na adolescência, significa que há dúvidas e desajustes emocionais causados por questionamentos em relação à própria identidade, o que se está fazendo neste mundo, porque certas situações só ocorrem com a tal pessoa, como veio a existir, etc. São estes e muitos outros os motivos que levam o adolescente a entrar em crise consigo mesmo achando que nunca vai encontrar as respostas que tanto precisa.

Há um estudo desenvolvido em meados do século XX que ficou conhecido como terapia da gestalt. Tinha como proposta associar as práticas cognitivas com as emoções e sentimentos do paciente para que ele possa encarar as situações difíceis da vida1. Esta ciência nos ensina o quanto é importante não somente identificar as causas que levam ao surgimento de crises, como também buscar o autoconhecimento para descobrir como fortalecer as potencialidades individuais. Tais práticas têm como finalidade aprender a lidar com as situações embaraçosas da vida e também com o amadurecimento cognitivo. Compreender as possíveis razões que levam um adolescente a adentrar numa crise existencial é um importante para a compreensão da crise em si, que adotadas as medidas cabíveis podem resultar no início de uma grande experiência com Deus.

Compreendendo a crise
Antes de dar início a qualquer crítica quanto às atitudes mais do que suspeitas que um adolescente possa demonstrar é importante compreender o labirinto em que muitos se encontram frente às complicações da vida. Há muitos que se fecham em seu mundo interior e encontram dificuldades para compartilhar temores, dúvidas e aflições que, quando não tratadas, podem gerar complicações ainda maiores. De todas as crises existenciais mais severas que um adolescente possa enfrentar, penso que não há maior dificuldade do que lidar com aquelas relacionadas à sua autoestima. Todos em algum momento da vida já se perguntaram “por que sou assim?” ou “por que isso só acontece comigo?” São perguntas complexas que muitos fazem quando a opinião de terceiros em relação à sua pessoa assume espaço determinante. É como se a opinião do outro tivesse o poder de avaliar o que é real do que é ilusório. São pessoas (adolescentes) dependentes de serem bem vistas pela coletividade que as cerca.

A situação é ainda mais grave quando se aponta para Deus a responsabilidade sobre os conflitos internos decorrentes das rejeições e críticas por conta da beleza externa ou mesmo dos aspectos da personalidade. O sentimento de injustiça, baixo autoestima, conflito interno e questionamentos do tipo: “por que Deus me fez assim?”, levam muitos ao senso de isolamento e vontade de tentar contra a própria vida. Pesquisas da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que o número de suicídios no mundo entre jovens já ultrapassou o número de mortes por HIV. É um problema que tem crescido, inclusive aqui no Brasil, onde a taxa já ultrapassa 10%2. Esta é uma realidade que a igreja não pode isentar-se da responsabilidade de transmitir a verdade bíblica. Embora as pesquisas apontem para números gerais, a igreja está inserida na sociedade e não é de se estranhar que esse número também compreenda àqueles que estão dentro das igrejas.

Muitos adolescentes que se dizem cristãos também estão passando por conflitos difíceis de lidar. Ainda mais quando o espaço “religioso” impõe que o fato de ser cristão é ter uma vida feliz e próspera, afinal de contas, Cristo está em sua vida! Mas esta é uma inverdade já revista por muitos pais e líderes de juventude. Fato é que os adolescentes cristãos de nossos dias a muito já perceberam que simplesmente frequentar um espaço autodenominado evangélico não é suficiente para determinar o que é ser feliz na adolescência. A graça de Deus se tem feito presente para sustentá-los, pois se assim não fosse, estes seriam somente mais alguns que compunha o número de adolescentes e jovens da nossa sociedade que já se encontram fragilizados por conta dos problemas da adolescência.

Administrando a crise
Encontrar a melhor direção e aprender lidar com as intempéries desta fase da vida é o sonho de qualquer adolescente. Embora cada um reaja de maneira especifica, há algumas medidas que podem ser adotadas em qualquer situação:

a) Necessidade de diálogo. O isolamento é prejudicial para qualquer pessoa em qualquer fase da vida. Em Provérbios 18.1 está escrito que “quem não gosta de estar na companhia dos outros só está interessado em si mesmo e rejeita todos os bons conselhos”. Isolar-se dos demais é reprimir as emoções numa tentativa fútil de se esconder da realidade sem ter para onde ir. Portanto, se abrir e conversar com alguém de confiança é sempre o melhor caminho.

b) Foco na solução, e não no problema. É comum as pessoas procurarem sempre achar um culpado para os seus problemas. Identificar o problema a fim de encontrar as possíveis causas é só o começo para chegar-se a resolução. É preciso ter foco na solução! Traçar um planejamento e verificar o que pode ser feito para resolver a situação é uma iniciativa otimista.

c) Confiança em Deus. Buscar encontrar no Senhor o apoio espiritual e, porque não dizer, emocional nestes momentos é fundamental. Basta olhar para a vida do rei Davi que em muitos dos salmos que escreveu, expressou com tristeza tudo o que se passava em seu coração e o Senhor lhe respondia (cf. Sl 13; 39).

d) A constância. E, por fim, a constância é fundamental em qualquer aspecto da vida. Não é difícil encontrar pessoas talentosas que deixam os olhos de qualquer um maravilhado pela forma como se destaca. Todavia, a inconstância faz com que todo esse potencial seja desperdiçado. Tiago afirma que aquele que duvida é como as ondas do mar que o vento leva de um lado para o outro (Tg 1.6-8).

Considerações finais
Finalmente, aprender a lidar com as crises existenciais a partir da compreensão das possíveis causas que levam adolescentes a assumir comportamentos reprováveis é um importante passo a caminho da recuperação. Deus, em seu eterno amor e sabedoria, disponibiliza mecanismos que podem auxiliar o adolescente a enfrentar qualquer crise, seja ela qual for a sua origem ou proporção. Dentre eles está a comunicação, uma ferramenta poderosa que ao ser direcionada a Deus se faz em “oração”. E aos que têm um coração quebrantado a promessa dá certeza: “Um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (cf. Sl 51.17). Administrar a crise pode parecer difícil para aqueles que não estão acostumados a navegar em águas rumorosas, mas adotando as medidas adequadas e confiante no cuidado de Deus é possível obter a direção correta para chegar ao porto seguro.

Thiago Santos é editor das revistas Juniores e Pré-adolecentes, departamento de Educação Cristã, CPAD.

1 Significado da Gestalt. Disponível em: <https://www.significados.com.br/gestalt/>. Acesso em: 3 Jul. 2017.
2 OMS: suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos no mundo. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/oms-suicidio-e-responsavel-por-uma-morte-a-cada-40-segundos-no-mundo/ >. Acesso em: 3 de Jul. 2017.

Sobre o autor

Aline Ferreira

Evangélica, jornalista, pós-graduada em Administração de Marketing e Comunicação Empresarial, atua como redatora web na CPAD.

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