Comportamento Matéria Principal

Comportamento da geração digital na igreja

Ilustração: Fagner Machado

Por Adriel Lemos

O que você entende por comportamento? Lembro-me que quando criança, minha mãe me dava as seguintes recomendações antes que nós saíssemos de casa ou então quando iríamos receber visitas: “Comporte-se rapazinho, senão…”. Até hoje tenho medo quando ouço a palavra “comporte-se” porque começo a reviver emocionalmente toda a angústia daqueles momentos de infância quando minhas orelhas eram quase arrancadas. Até hoje penso que minha mãe comia espinafre e transformava-se no “Popeye de saias”.

O comportamento humano, sob o prisma da psicologia, de forma simples a entender, são todas as ações e reações de um indivíduo frente as relações humanas. O estudo do comportamento tem como objetivo ajudar a entender as ações realizadas pelas pessoas em determinadas situações, bem como os motivos que condicionam tais ações, e todas as possíveis alterações que o meio e as relações sociais, ao longo da vida, proporcionam a cada indivíduo (PAPALIA , 2009).

Veja quão importante é conhecer o comportamento das pessoas, pois entendendo este, entenderemos como as pessoas funcionam, reagem e agem diante das circunstâncias da vida.

Agora vem a pergunta: é importante conhecer o comportamento da geração digital(Y e Z)para liderá-los? A resposta é um sonoro SIM, com certeza!Entender o comportamento dos jovens e adolescentes é tão importante quanto conhecer suas mudanças biopsicossociais, pois seus comportamentos são a expressão máxima de suas falas, anseios e desejos. Pode ser que um adolescente seja mais quieto, no canto dele, e interaja com pouca frequência, mas essa linguagem comportamental não deixa de ser uma fala que nós líderes de adolescentes e jovens precisamos compreender. Compreender esse comportamento é o ponto de partida de um ministério bem-sucedido.

Conhecer o público alvo é tão importante quanto conhecer um produto a ser vendido, um carro a ser negociado ou algo do tipo. Um vendedor não fará qualquer tentativa de negócio se não estiver bem seguro quanto as informações do produto, e nós líderes e pastores de jovens e adolescentes, devemos seguir a mesma máxima, de conhecer muito bem nosso público de trabalho, se não nosso ministério será estéril. Como posso liderar um grupo que não conheço? Como posso ajudar pessoas que não entendo?

Nesse artigo, quero então tratar de forma específica o comportamento da geração digital (y e z), a quem lideramos, pois, uma vez que o líder consegue captar e reconhecer essas características em seu grupo, ele vai extrair o melhor dos adolescentes e jovens, e assim potencializar suas capacidades para o bem do grupo, e consequentemente para o bem da igreja e do reino de Deus.

Características da Geração Digital

A Geração Digital (Y e Z) possui um padrão de comportamento diferenciado das demais gerações, conforme pesquisa cientifica conduzida por Tapscott (2010). Isso é bem perceptível no dia a dia da igreja, onde os adolescentes e jovens destacam-se das demais pessoas por seu comportamento. Abaixo, quero colocar oito características diferenciadoras dessa geração, que nos ajudarão a conhecer nossos liderados. O objetivo aqui é apenas constatar o comportamento dos digitais e não esclarecer cada ponto, pois isso tornar-se-ia inviável devido a brevidade do artigo.

Vejamos as marcas características da geração digital:

1 – Eles querem liberdade em tudo que fazem e isso não é apenas birra e sim uma marca dos digitais. Liberdade de escolha, de expressão, de pensar e sentir; liberdade é o combustível dessa geração. Eles buscam liberdade em todos os aspectos da vida, como família, emprego, estudos e também na igreja, principalmente no departamento de adolescentes e jovens. Eles não querem ser trancafiados em uma rotina ou grupo rígido com ordens expressas, eles querem um ambiente acolhedor e que favoreça a liberdade. Cremos que você já tenha percebido que eles estão dispostos a brigar por isso, não é verdade?

2 – Eles adoram customizar tudo, pois em seu mundo digital tudo é customizável. Smartphones, computadores, tablets, as notícias, fontes, cores, apps, o que querem e quando querem ver pela Netflix; tudo é personalizado de acordo com os gostos pessoais. E esse comportamento não fica restrito ao digital, pois hoje os adolescentes querem customizar as escolas, faculdade, mercado de trabalho, relacionamentos, tudo sem padrão definido. O grupo de adolescentes e jovens também não escapa da customização, pois para eles, o padrão, rotina, e aquilo que é estático, torna-se chato e insuportável. Não é à toa que o governo brasileiro mudou o plano de educação de 2018, no qual, no ensino médio o aluno poderá escolher qual sua área de interesse.

Até o mercado financeiro está sendo abalado pelas Fintechs, que são Startups que criam inovações na área de serviços financeiros. E pensar que no meu tempo a única coisa que eu customizava era os adesivos que vinha no caderno de 10 matérias. O lamentável é que muitos estão customizando até mesmo os princípios de vida, que deveriam ser inegociáveis, por isso cabe a nós líderes explorarmos o bom potencial dos digitais e ensiná-los quanto aos seus erros.

3 – Eles são muito investigadores e não se conformam apenas com o sim ou não. Querem saber por que, e para que de tudo. Esse comportamento é produzido muito pelo “boom” da informação através da internet que possibilita que todos tenham acesso a tudo. No grupo por exemplo, é comum ver adolescentes e jovens questionando as atividades, a agenda, os costumes, a decisão do líder, do pastor, etc. Pois eles não se contentam apenas com o sim ou não conforme as gerações passadas, mas sim querem entender, compreender e assimilar o que está sendo feito com o grupo.

4 – Eles procuram integridade em tudo que fazem. Existe um número crescente de digitais que buscam produtos de empresas com responsabilidade socioambiental, produtos de empresas que estão de acordo com seus valores pessoais, empregos em empresas que respeitarão sua integridade moral, buscam causas pelas quais possam lutar. etc..

Aliás, os digitais da igreja já seguem esse mesmo padrão e hoje cobram de suas lideranças respostas da igreja quanto a diversas causas sociais e ambientais. Já no grupo de adolescentes e jovens, é perceptível o número de digitais que, mantendo o mesmo perfil de comportamento, buscam líderes e pastores sérios, igrejas comprometidas com a teologia genuína, sem aceitar os malabares teológicos que muitos têm praticado atualmente. Pessoalmente, considero isso uma grande virtude, pois eles não aceitam mais qualquer palavra goela abaixo, mas sim a genuína palavra, que vai de encontro com a tão sonhada integridade que a atual geração busca.

5 – Eles querem entretenimento e diversão no trabalho e para eles isso é sério e não utopia. Essa galera quer entretenimento e responsabilidade junto e estão provando que essa junção pode dar muito certo.

Há diversas empresas, em especial o Nubank e o Google, que estão revolucionando o mercado de trabalho da era digital, pois são empresas que notadamente possuem altos índices financeiros, e ao mesmo tempo altos índices de satisfação de seus funcionários, e sabe como? Lá os funcionários podem trabalhar de sandálias, com a roupa que quiserem, levar seus cachorros para a empresa, tirar uma soneca em meio ao expediente (algumas funções na Google permitem tal “vantagem”) e uma infinidade de possibilidades que eram inimagináveis em empresas há alguns anos atrás; e que ainda são para algumas até hoje.

E pensar no tempo em que funcionários não poderiam nem sequer ir no banheiro. Aí você pensa: “o que isso tem a ver com os adolescentes e jovens da minha igreja”? Tudo!!! Na igreja também se vê esse movimento nos adolescentes, pois as antigas gerações assemelhavam o evangelho a seriedade e formalidade – cara feia para ser mais direto.

Creio que você lembra daquela época onde o mais santo era aquele que tinha a cara mais fechada! Brincadeiras à parte, hoje os adolescentes estão provando por A + B que sim, podemos servir ao Senhor com alegria, diversão, felicidade, espontaneidade, mesmo que seja no culto.

Culto não é local de cara fechada e sim de alegria. O culto precisa transparecer a alegria de servir ao Senhor e não uma reunião fúnebre onde os crentes estão com caras fechadas como “quem comeu e não gostou”.Essa é a geração digital.

6 – Eles são colaborativos em muitos aspectos, pois estão ligados com o mundo inteiro através das redes sociais e jogos em rede. É uma geração que não quer apenas ser parte de algo e sim agir para transformar o mundo a sua volta. Esse espírito empreendedor da geração digital os faz colaborarem em interesses comuns.

Esse é um aspecto muito importante inclusive na igreja, com o grupo de adolescentes e jovens, pois a partir do momento que o líder entender o papel dos digitais na transformação da sociedade, ele vai usar essa colaboração ao seu favor, para o sucesso do ministério de sua igreja; mas aqui tem um segredo. Os digitais só colaboram naquilo que elesacreditam. Se a colaboração de seu grupo é baixa, é preciso fazê-los acreditar em seu projeto.

7 – Eles precisam de velocidade e não aceitam o contraditório. Tudo em seu mundo é rápido: a internet, a TV, os videogames, os smartphones, as mensagens instantâneas, as notícias, etc. Por que você acha que em outras áreas da vida eles seriam diferentes? Por que você acha que no grupo de adolescentes e jovens eles vão querer algo diferente?

Eles querem dinheiro, maturidade, relacionamentos, carreira, tudo de forma rápida, em alta velocidade, inclusive na igreja. Esse é um fator muito preocupante que tem aumentado significativamente o número de pessoas no mundo inteiro com psicopatologias ocasionadas pela ansiedade.

É extremamente importante o líder trabalhar esse aspecto com o grupo para assim buscar o bem-estar físico e psicológico dos digitais, pois o líder verdadeiro preocupa-se com a integralidade do adolescente e jovem, e não apenas com o ser espiritual.

8 – Eles são inovadores e isso é incontestável. O mundo é bem diferente após o aparecimento das Gerações Y e Z, pois essa ansiedade pelo novo os fazem buscar sempre a inovação.

Gosto muito de uma frase que ilustra de forma perfeita esse aspecto de inovação, que é: “o excelente de hoje é o medíocre de amanhã”. Entendeu? O que é bom hoje, amanhã pode não ser mais. Simples assim. Por isso, cabe ao líder digital explorar esse comportamento do adolescente e jovem, pois através das boas ideias deles, o grupo pode crescer e se fortalecer muito.

Interessante, não é? Pois é, agora não temos mais desculpas de que não sabíamos, pois, a venda já foi tirada de nossos olhos e agora sabemos como explorar o máximo potencial espiritual dos adolescentes e jovens que lideramos!
Desejo e oro pelo sucesso em seu ministério!!

¹PAPALIA, Diane E.; OLDS, Sally Wendkos. Desenvolvimento humano. Artmed, 2000.
²TAPSCOTT, Don. A hora da geração digital: Como os jovens que cresceram usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos. Rio de Janeiro: Agir Negócios, 2010.

Pastor Adriel Lemos, casado com Talita Colombo, pai do Vinicius. Formado em psicologia, pastor auxiliar na AD Criciúma (SC) onde também atua como secretário titular, pastor de jovens e vice-coordenador estadual de adolescentes pela CI

Sobre o autor

Roberta Marassi

Roberta Marassi é jornalista, pós-graduada em telejornalismo, editora da revista GeraçãoJC, membro da AD.

Add Comentário

Clique aqui para postar comentários