Coisas de Deus

Após anos vivendo no pecado, jovem tem novo encontro com Cristo

Arquivo pessoal

“… uma coisa sei, e é que, havendo eu sido cego, agora vejo” (João 9:25b).

Meu nome é Azaias Lima Souza, mas desde criança me chamam de Ferro (basicamente porque era muito “peralta”: caía e não chorava; era duro na queda). Sou o filho caçula do pastor João Macário de Souza e Maria das Neves Lima Souza. Sempre tive muito orgulho de ser filho do pastor Macário, pois foi o primeiro a pastorear a AD do bairro Vila Nova, em Imperatriz (MA), onde ainda hoje congrego.

Quando nasci, meu pai já era pastor há anos, portanto “nasci e me criei” na igreja, cantando no coral infantil, cantando solo desde os cinco anos, participando das orações infantis e amava frequentar a Escola Dominical: lembro com muito carinho da tia Paula: ela contava as historinhas da Bíblia e me fazia viajar na imaginação quando ouvia falar de Davi e Golias, Sansão, Moisés e ainda recordo ela contando a parábola do Bom Pastor. Eu era uma criança muito feliz!

Mas infelizmente a vida não continuou assim. Não me recordo ao certo a idade, mas entre os 6/7 anos fui abusado sexualmente por uma pessoa muito próxima. Lembro que no começo parecia uma brincadeira inofensiva, mas que mais tarde se tornaria um problema muito maior do que eu podia imaginar. As consequências desse abuso foram drásticas. Ainda na infância passei a me comportar como uma criança “pervertida”, me envolvendo sexualmente com meninos e meninas, em brincadeiras que sempre adquiriam esse mesmo tema: sexo.

Ao mesmo tempo, fui crescendo com uma angústia muito grande, tentando entender o que havia de errado comigo e porque eu havia sido “escolhido” pra viver desse jeito. Por que logo eu? Filho de pastor que adorava cantar na igreja, que adorava cantar com as outras crianças, que amava estar na igreja!

A adolescência foi chegando, meu pai foi transferido pra uma igreja noutro bairro e tudo ficou ainda pior. Aos 12 anos comecei a me envolver sexualmente com meu professor de ED. Um homem que já tinha seus 34 anos. Ainda lembro da sensação que tinha depois que nos encontrávamos. Queria que ele morresse! Outras vezes, o desejo era de me suicidar. O odiava e me odiava ao mesmo tempo. Foi a pior época da minha vida! E isso durou uns três anos.

Por volta dos 13 anos, namorei uma garota da igreja, mas não consegui continuar o namoro, pois sofria uma pressão interna e uma confusão de sentimentos muito forte. Eu a amava, mas não suportava a ideia de estar enganando-a, vivendo uma vida dupla com o tal professor.

Depois dos 15/16 anos, estava “convicto” de que havia nascido assim mesmo e comecei a me conformar com a vida que estava levando. Embora ainda estivesse congregando, mas meu relacionamento com Deus era muito superficial. Só permaneceu o desejo profundo de louvá-lo. Quando cantava parecia que saía desse mundo, parecia que os problemas iam-se embora. Mas o relacionamento com Deus não é feito apenas de canção. Embora tivesse um pastor admirável dentro de casa, um mestre que me enchia de orgulho, estava me condenando miseravelmente sem conhecer a Deus de verdade. Sem ter um relacionamento sincero com Ele.

Na fase dos 20 anos, decidi sair da igreja, pois me achava a pessoa mais imunda e imoral. Odiava fingir que era crente, mas que na verdade vivia uma vida completamente incoerente com os princípios bíblicos.

Minha alma estava muito cansada. Por muitos anos minha vida foi um vai e volta pra “igreja”. Reconciliava e caía, uns anos na igreja e outros no “mundo”. Era um looping infinito, o que me desgastava ainda mais, me frustrava e meu estado se tornava cada vez pior do que antes.

Já entrando na “casa” dos 30 anos, tive um relacionamento que me parecia ser tudo o que eu buscava pra minha vida e por um tempo vivi a ilusão de que era respeitado, aceito e amado da forma que queria. Mas era tudo uma ilusão, não demorou muito pra eu perceber que estava nadando contra a maré. Todos os sinais me indicavam que aquela vida não era pra mim, que eu não estava feliz como achava que estava e por muitas vezes a angústia foi tão grande, que o pensamento de morte era frequente em minha cabeça. Enfim, o relacionamento acabou. Foi uma turbulência de sentimentos, tristeza, sensação de abandono, vontade de morrer. Ah, como minha alma precisava descansar! Mas a teimosia e o medo me impediam de tomar o caminho de volta pra casa. Assim como o filho pródigo, pensei que não era mais digno de compaixão nenhuma por parte do meu Pai.

Mesmo me sentindo assim, em fevereiro de 2015, no dia do meu aniversário, estava numa igreja na cidade de Palmas (TO), pois tinha ido visitar meus primos no carnaval e decidi ir pra igreja que eles congregam. Lá, enquanto o pregador ministrava, Deus ia falando comigo e eu dizia pra mim mesmo: hoje vou tomar uma decisão e minha vida vai mudar. Eu não nasci pra viver assim! Enquanto o ministério de louvor cantava, o pregador perguntou se havia alguém que queria se entregar pra Jesus ou se reconciliar com Deus. Eu, racionalmente, levantei minha mão (não chorei, não senti arrepios, nem sequer saí do meu lugar), simplesmente reconheci que era impossível pra mim viver longe de Jesus.

Depois da oração, foi como se uma tonelada tivesse saído das minhas costas. Minha alma estava descansada, em paz e confiante de que recomeçaria um relacionamento sincero com Deus. Voltei para minha cidade, contei minha decisão para meus pais, que receberam a boa notícia com muita alegria, e voltei a congregar na AD, onde meu pai havia sido o primeiro pastor (há alguns anos ele já está jubilado).

Nesse mesmo ano tive a oportunidade de pedir perdão e perdoar quem me abusou: foi libertador para nós dois! Deus restaurou por completo todo o vínculo que tínhamos, tirou toda culpa que sentíamos e libertou de mim toda mágoa que havia ficado por anos impregnada!

Desde minha decisão até hoje tenho entendido que meus questionamentos da infância e adolescência não faziam muito sentido, pois eles me colocavam no centro da questão. Outro erro era também querer excluir minha responsabilidade. Foi então que entendi que seguir a Cristo significa renúncia: tomar a cruz dia após dia e O seguir. Renunciar o meu “eu” em prol de uma vida eterna!

Deus tem sido tão maravilhoso que tem me feito relembrar os sonhos que ele tinha plantado em mim há muitos anos, mas que eu havia deixado pra trás justamente por estar muito ocupado em olhar para o “meu problema, meu pecado”, e me esquecendo de confiar em Deus.

Em 2007 Ele falou muito forte comigo em relação a missões. Ele me despertou a orar pela igreja perseguida e colocou um amor especial em meu coração pela África. Era o continente que sempre vinha em minha mente quando orava ou pensava em missões. Muitas e muitas vezes (nessas minhas idas e vindas na caminhada cristã) Deus confirmou pra mim o sonho de servir a Deus, nem que fosse por um dia, em algum país da África.

Em outubro de 2016 a missionária Sônia Maria Mendes, que tem um projeto chamado Keru Dund, um Centro de Saúde em Senegal, na África, esteve ministrando na minha igreja e depois da ministração ela lançou o desafio para quem pudesse doar o mês de férias para trabalhar como voluntário nesse projeto que ela desenvolve em Senegal. Sem pensar em nada eu fui à frente e aceitei o desafio.

Se Deus permitir, em janeiro de 2018 eu estarei indo para Senegal com uma equipe de médicos, outros profissionais de saúde e voluntários para servir ao Senhor, ajudando os senegaleses nesse Centro de Saúde. Para isso, estou num projeto de mobilização da minha igreja local, familiares, amigos e demais irmãos pelo Brasil todo para me ajudar a conseguir chegar à Àfrica, pois todas as despesas serão pagas por cada um dos voluntários.

Lancei uma campanha chamada “Senegal: com Fé/rro eu vou!”, fazendo um trocadilho com o apelido que ganhei na infância. Graças a Deus a campanha está indo bem e tem ganhado bastante adesão.

Tenho vendido camisetas com esse “slogan”, tenho feito rifas, tenho recebido doações dos familiares e irmãos e tenho uma vakinha na internet também. Ainda esse ano pretendo realizar uma feijoada no meu bairro para arrecadar os recursos que ainda faltam, mas estou confiante que o Deus que realiza em nós tanto o querer quanto o efetuar, abrirá as portas para que minha viagem à Senegal dê certo.

O meu futuro está nas mãos do Senhor, entreguei-me por completo a Ele e confio que nenhum dos planos Dele para mim se perderão. Como diz o Salmo 139, todos os meus dias estão contados por Deus. Ele escreveu cada um deles antes que nenhum deles ainda houvesse.
Você também é um projeto de Deus. Entregue sua vida a Ele!

Sobre o autor

Roberta Marassi

Roberta Marassi é jornalista, pós-graduada em telejornalismo, editora da revista GeraçãoJC, membro da AD.

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