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Afinal, quem é o super-homem prime?

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Por Claudionor de Andrade

Quando criança, distraía-me a ler e a reler os gibis do super-homem. As aventuras daquele kriptoniano simpático, ético e prestativo encantavam-me. Sua prontidão era impressionante. Ao pressentir algum perigo, ele entrava numa cabine telefônica e, ali, sem pejo algum, despia o terno, tirava o chapéu e arrancava os óculos. E já ostentando uma roupa com as cores dos Estados Unidos, ganhava os ares a socorrer os fracos, os desamparados e os oprimidos.

Seus poderes, provenientes do sol amarelo, não chegavam a ser sobrenaturais. Ele era mais rápido do que a bala de um revólver, mais forte do que uma locomotiva e podia saltar grandes edifícios sem dificuldade alguma. Às vezes, confundiam-no com um pássaro. Outras vezes, com um avião. Mas, logo, era reconhecido como o super-homem.
Até hoje não sei qual é a sua maior fraqueza: a kriptonita ou a repórter Lois Lane, por quem nutria um amor não resolvido.

Desde que foi criado na década de 1930, por Joe Shuster e Jerry Siegel, o mais famoso dos super-heróis foi submetido a diversas fases e mudanças. Hoje, já não ostenta as cores norte-americanas. Num traje azul-escuro, dispõe de poderes quase místicos; nem os deuses gregos possuíam tanta força e tanta magia.

No filme O Homem de Aço, o ator britânico Henry Cavill interpreta um personagem que, transcendendo religiões, teologias e credos, coloca-se no lugar do próprio Cristo. Na cena em que ele, abrindo os braços entre o Céu e a Terra, imita o Filho de Deus na cruz, ficamos sem saber como interpretar-lhe o gesto. Homenagem ou caricatura do Crucificado?

Depois desse filme, a expectativa era grande: O que virá agora? Um semideus, um deus ou um antideus?
Enquanto a grande tela fazia suas diabruras, éramos surpreendidos por uma versão do super-homem jamais imaginada por seus criadores originais. Até mesmo Nietzsche teria dificuldades em redigir semelhante roteiro. O super-homem, agora anunciado, escapando às garras de Darwin, busca superar o próprio Deus. Até que ponto a corda entre a ficção e a reverência ao Todo-Poderoso poderá ser distendida?

Em seu livro Assim falou Zaratustra, declarou solenemente Nietzsche: “O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem, uma corda por cima do abismo”. Desde o filósofo prussiano, a corda foi de tal forma estressada, que acabou por arrebentar na pós-modernidade. O que o filósofo prussiano não quis ver é que, nesta ponta da corda, não estava propriamente um animal, mas o homem criado à imagem e à semelhança de Deus, e, na outra ponta, não se achava o super-homem, mas o Diabo travestido de super-herói. Quanto ao Criador dos Céus e da Terra, não precisa Ele medir forças com ninguém. Ele é o que é; o Grande Eu Sou!

Com a corda de Nietzsche, o homem poderia fazer várias coisas. Antes de tudo, o laço da própria forca. E, também, estirá-la de uma ponta a outra deste abismo, a fim de transpô-lo. Só que a corda foi espichada de tal maneira que veio a romper-se. Pobre homem! Soçobrou-se no niilismo; já não sabe quem é. Se ele imaginava que o super-homem viria socorrê-lo, enganara-se.

Onde foi parar a pretensa religiosidade do herói kriptoniano? Mas tinha ele alguma? Ou em seu planeta natal a religião era desnecessária?

Quanto a mim, não aceitaria esse herói em minha igreja. Em primeiro lugar, porque ele é um crente de duas caras. Num momento, é Clark Kent; no outro, o super-homem. E quanto à sua modéstia? É necessário exibir um “S” tão grande no peito? O verdadeiro discípulo de Cristo traz, no corpo, as marcas do Salvador. Além do mais, como encarar um homem que, desde a década de 1930, namora a pobre Lois Lane, e não a pede em casamento? Sobre a sua origem, veio ele de um planeta, cuja etimologia aclara muita coisa: em grego, kripton significa oculto. Não obstante, há muita gente que acredita em sua religiosidade.

Segundo o jornal L’Osservatore Romano, o super-homem pertenceria à Igreja Metodista. De acordo com o órgão de imprensa da Santa Sé, pode-se inclusive divisar uma dimensão cristológica no gentil kriptoniano. Todavia, não foi propriamente um herói arminiano que rompeu a corda de Nietzsche. Talvez o filho adotivo da família Kent nem estivesse predestinado a realizar tal façanha escatológica.

Quem rompeu a corda de Nietzsche foi o Superman Prime, uma versão infinitamente mais poderosa do herói que, na década de 1930, limitava-se a prender os meliantes e que tiravam a paz de Metropolis.

Agora, o super-homem, deprimido com a perda de todos a quem amava, deixa a Terra. E empreende uma viagem pelo Universo, em busca de conhecimento. De planeta em planeta, absorve a ciência toda do Cosmo. De galáxia em galáxia, multiplica infinitamente seus poderes. E, no final de sua jornada, vem a tornar-se uma entidade onipotente, onisciente e onipresente. Ele já pode, inclusive, chamar as coisas que não existem à existência. Torna-se, enfim, mais poderoso do que o Deus Único e Verdadeiro.

Neste ponto, constranjo-me a perguntar: “Há alguém predisposto a consumir um enredo tão esdrúxulo?”.
Infelizmente, não estamos falando de ficção. É claro que ninguém destronará o Todo-Poderoso. No entanto, esse super-homem talvez já esteja entre nós. Pelo menos, o seu espírito sim (1 Jo 4.3). Qual o seu nome?

Alguns tradutores de Friedrich Nietzsche verteram para a língua portuguesa o vocábulo alemão Übermensch de diversas formas. Aqui, aparece como o super-homem. Ali, como o sobre-homem. Mais à frente, reaparece como além-do-homem. Alguns, mais eruditos, elegeram um vocábulo ainda mais requintado e precioso: homos superior. Para esse personagem, o apóstolo Paulo tem algumas alcunhas e designações bastante apropriadas:

“Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniqüidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (2 Ts 2.3,4).

Eis que vos anuncio o super-homem prime! Sim, querido leitor. Eis aí o homem da iniquidade e o filho da perdição. Ele há de se levantar como mais poderoso do que o Todo-Poderoso. Pelo menos é o que Satanás fará com todos, no início da Septuagésima Semana de Daniel, pensem (Dn 9.27).

Se, hoje, o Super-Homem Prime parece uma ficção absurda e inaceitável, quando da ascensão do Anticristo o que não passa, agora, de uma estória de quadrinhos enquadrar-se-á como algo bem real. Afinal, como negar a realidade de um ser que faz descer fogo do céu, dá vida à imagem da besta e opera outros sinais e maravilhas? Maravilhas e sinais que, aos olhos da humanidade daqueles dias, serão mais espetaculares do que os atos de Deus narrados nas páginas da Bíblia Sagrada.

Mas, ao contrário da ficção, o Anticristo Prime não terá um final feliz, porque o Senhor Jesus destruí-lo-á e o lançará no lago de fogo. E todos saberão que o Nazareno não é apenas o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, mas o Leão de Judá que tirará do Universo, de uma vez por todas, o principal pecador e arqui-inimigo de Deus.

Jesus Christ is the prime and the last!

Claudionor de Andrade é pastor, escritor, conferencista e consultor doutrinário e teológico da CPAD.