Matéria Principal Tira-Dúvida

A Bíblia Sagrada cita a existência de animal mitológico? Como entender a sua menção em Nm 23.22; 24.8; Dt 33.17; Jó 39.9,10; Sl 22.21; 29.6; 92.10 e Is 34.7?

Ilustração: Fagner Machado

Por Eduardo Araújo

Não, definitivamente a Palavra de Deus não dá margem para este tipo de interpretação, aliás seres mitológicos, como o próprio nome indica, jamais foram identificados e classificados de acordo com a sua espécie pela Ciência. Mas como entender que a sua nomeação esteja incluída na Bíblia Sagrada?

O renomado Ph.d. em Línguas Clássicas e autor norte-americano Russell Norman Champlin explica em sua Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia que o animal descrito, na verdade, era uma espécie selvagem identificada nas literatura assírias sob o termo Rimu e que provavelmente corresponde ao auroque, também conhecido como bisão europeu, uma espécie ruminante extinta. Trata-se do antepassado do gado doméstico. Os historiadores concordam que os últimos indivíduos que representavam a espécie morreram na Floresta Jaktorów, Polônia em 1627. O animal alcançava uma altura de cerca de 1,8 metro e cerca de 3 metros de comprimento. O bovino possuía dois chifres que podiam ultrapassar mais de 75 centímetros de comprimento.

Já na língua hebraica, quem aparece é o termo reem, mas a versão portuguesa incluiu a presença do “boi selvagem” descrito como um animal forte, corpulento e feroz. Champlin em sua obra explica que não era possível amansá-lo, para levá-lo a ajudar o homem em seus labores agrícolas.

Considerando a sua natureza selvagem, até mesmo caçá-lo tornava-se uma arriscada aventura. Por sua vez, o tal unicórnio, jamais existiu. O animal é mencionado em lendas antigas, e nada mais. A criatura era concebida como um animal bem menor que o touro, dotado apenas de um único chifre no meio da testa. A versão portuguesa da Bíblia Sagrada mostra-se correta ao preferir “boi selvagem” e não “unicórnio”.

O animal habitava em grandes rebanhos na Europa e Ásia ocidental, e encontra-se representado nos baixos-relevos dos monumentos da Assíria. Na Antiguidade, os chifres de um animal representavam força e poder, uma vez que uma dessas criaturas ostentando esses “apetrechos” naturais representava um verdadeiro perigo: o ataque a uma pessoa despercebida poderia ser fatal por causa dos ferimentos produzidos pela fúria de um animal desta envergadura.

Eduardo Araújo é presbítero, editor da revista Obreiro Aprovado, redator do jornal Mensageiro da Paz, jornalista, teólogo, conferencista e pós graduado em docência do ensino superior